segunda-feira, 16 de abril de 2012

No dia 27 de março de 2012 tomaram posse na ALAM, Adriana Igrejas, autora de "A fórmula da vida" e Laurinda Soares Delgado, no Auditório da Escola Municipal Rotariano Arthur Silva, Rua Paraná, 443, Centro.
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O evento foi aberto e presidido pelo presidente da ALAM, o jornalista Othon Ávila Amaral. Adriana Igrejas foi empossada na cadeira número 24, e tem como patrono Ary Barroso. O vice-presidente da Academia, Glaucio Varella fez a apresentação da escritora contista, cronista e romancista, autora da obra A Fórmula da Vida.



Adriana fez um eloquente discurso sobre Ary Barroso, lendo algumas de suas canções e depoimentos do artista em vida sobre diferentes assuntos. (Ver discurso mais abaixo)


A atriz Laurinda Soares Delgado, ocupa a cadeira de número 21 e tem como patrono Rui Afrânio Peixoto. Durante a solenidade, Laurinda foi saudada por Jorge Barros, um dos membros da diretoria da ALAM.






Presidente da ALAM, ao centro



Laurinda e Adriana

Os acadêmicos


Discurso de Posse na Academia de Letras e Artes de Mesquita
Adriana Igrejas
Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia de Letras e Artes de Mesquita, o Senhor Jornalista Othon Ávila Amaral, Senhor Vice- presidente, Prof. Gláucio Varella, Senhores Acadêmicos, Autoridades aqui presentes e representantes, caros amigos, meus senhores, minhas senhoras.
É com orgulho e, sobretudo, com humildade que adentro o mundo das Letras, passando assim a fazer parte desta nobre Academia e a poder contar com a ilustre compahia de tantos brilhantes, talentosos e geniais poetas, poetisas, contistas, cronistas, escritores e artistas.
Comecei a escrever muito cedo, na infância, mas sempre me pareceu muito distante este universo dos literatos, os acadêmicos... gente distante demais, inteligente demais, feitos de glória e de nuvens. Portanto, perdoem-me se ainda tenho a sensação de irrealidade neste exato momento. É que, apesar de sempre ter sido uma escritora na alma, bem pouco tempo faz que publiquei realmente meu primeiro livro, só meu, não uma coletânea. Ainda me soa estranho quando penso ou digo que sou escritora. Ainda me parece ousado demais, um atrevimento, achar que posso fazer parte desse universo que sempre admirei e estudei como leitora, como estudante, como professora. Mas aqui estou. Agradeço de coração e imensamente ter sido acolhida nesta célebre academia por estes distintos acadêmicos. Agradeço também a Deus, força suprema, energia e luz que rege o universo, por me agraciar com um dom e, bondosamente, me permitir colher alguns louros. É uma honra inenarrável e indescritivel poder estar aqui hoje, ter chegado a esta realização de um sonho.
Venho a ocupar a Cadeira de número 24, cujo patrono é Ary Barroso, grande compositor brasileiro, reconhecido internacionalmente e autor de uma canção que se tornou um hino popular brasileiro: Aquarela do Brasil. Literatura e Música popular se misturam, na medida em que os versos do compositor ainda são versos. Cantados, eles vão mais longe, atingindo um mundo de pessoas, muitas que jamais leriam um poema escrito. A canção faz a poesia chegar aos lábios de todos, faz com que tanto os sábios, os doutores, os letrados quanto os iletrados, incultos e excluídos a saboreem; cada um apreciando-a como pode, indo mais fundo na absorção de seu conteúdo, ou simplesmente apreciando suas rimas e musicalidade. A música popular e suas canções é a democratização da poesia. Sim. Viva o poema simples, que está presente em todos os estilos musicais brasileiros e que enriquece a Literatura, como arte viva e pulsante! Dessa forma, Ary Barroso é mestre. Cantou em seus versos a cultura brasileira e seu povo com a maestria de quem era parte desse universo.
Filho do deputado estadual e promotor público João Evangelista Barroso e Angelina de Resende, aos oito anos, órfão de pai e mãe, Ary Evangelista Barroso, ou simplesmente, Ary Barroso, pois ele teria sido o primeiro artista brasileiro a adotar um nome artístico por causa da numerologia, foi adotado pela avó materna, Gabriela Augusta de Resende. Realizou estudos curriculares na Escola Pública Guido Solero, Externato Mineiro do prof. Cícero Galindo, Ginásios: São José, Rio Branco, de Viçosa, de Leopoldina e de Cataguases. Estudou teoria, solfejo e pianocom a tia Ritinha. Com doze anos já trabalhava como pianista auxiliar no Cinema Ideal, em Ubá. Aos treze anos trabalhou como caixeiro da loja "A Brasileira" e com quinze anos fez a primeira composição, um cateretê "De longe".
Em 1919, Ary Barroso veio ao Rio pela primeira vez. As coisas que mais o impressionaram no Rio de Janeiro foram o tamanho da Estação da Leopoldina, o número de pessoas na rua e é claro, o mar.
Em 1920, com o falecimento do tio Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, recebeu uma herança de 40 contos (milhões de reis). Então, aos 18 anos veio ao Rio de Janeiro estudar Direito, ali permanecendo sob a tutela do Dr. Carlos Peixoto. A fortuna deixada pelo tio deveria durar até o final do curso da Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), mas como Ary era adepto da boemia, em menos de três anos gastou todo o dinheiro em bares e como era vaidoso, em roupas e chapéus e bengalas, acessórios elegantes e de status da época, provavelmente algo como ter um smart phone hoje em dia. Assim, ele é reprovado na Faculdade, abandonando os estudos no segundo ano. Suas economias exauriram o que o fez empregar-se como pianista no Cinema Íris, no Largo da Carioca e, mais tarde, na sala de espera do Teatro Carlos Gomes com a orquestra do maestro Sebastião Cirino. (Lembrando que o cinema da época tinha fundo musical ao vivo). Tocou ainda em muitas outra orquestras.
Em 1926 retoma os estudos de Direito, sem deixar a atividade de pianista. Dois anos depois é contratado pela orquestra do maestro Spina, de São Paulo, para uma temporada em Santos e Poços de Caldas. Nessa época, Ary resolve dedicar-se à composição. Compõe "Amor de mulato", "Cachorro quente" e "Oh! Nina", em parceria com Lamartine Babo, seu contemporâneo na Faculdade de Direito.
Em 1929 obtém, finalmente, o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais. Seu colega de Faculdade e grande incentivador, Mário Reis, grava "Vou a Penha" e "Vamos deixar de intimidades", que se tornou o primeiro sucesso popular.
Nos anos 1930, escreveu as primeiras composições para o teatro musicado carioca. Aquarela do Brasil teve a primeira audição na voz de Aracy Cortes e regravada diversas vezes no Brasil e no exterior. Recebeu o diploma da Academia de Ciências e Arte Cinematográfica de Hollywood pelatrilha sonora do longa-metragem Você já foi à Bahia? (1944), de Walt Disney.
Em 1937 lançou, na Rádio Cruzeiro do Sul, o programa "Calouros em Desfile", onde obrigava os candidatos a só cantarem músicas brasileiras. Depois, essa atração vai para a TV Tupi. Em 1938 Vai para a Rádio Tupi onde atua como lucutor, comentarista, humorista e ator.
A partir de 1943, manteve durante vários anos o programa A hora do calouro, na Rádio Cruzeiro do Sul do Rio de Janeiro, no qual revelou e incentivou novos talentos musicais. Também trabalhou como locutor esportivo (proporcionado momentos inusitados ao sair para comemorar os gols do seu time o CR Flamengo). É autor de centenas de composições em estilos variados, comochoro, xote, marcha, foxtrote e samba. Entre outras canções, compôs Tabuleiro da baiana (1937), muito conhecida (cantar: O tabuleiro da baiana tem...) e (Os Quindins de Yayá) (1941), Boneca de piche, etc.
Em 1946 Ary é eleito o segundo vereador mais votado do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Como vereador, ficou marcado por seus discursos inflamados e por ter apoiado a construção do Estádio Mário Filho.
Durante a década de 1940 e a década de 1950 compôs vários dos sucessos consagrados porCarmen Miranda no cinema. Ao compor Aquarela do Brasil inaugurou o gênero samba-exaltação. Apesar das críticas recebidas, como a do cunhado que disse: coqueiro que dá côco? O que você queria que ele desse? Ele não se importou e disse estar inspirado de um grande sentimento nacionalista. Foi quando surgiu para ele o retrato de um Brasil glorioso.
Ary Barroso também era locutor esportivo. Torcedor confesso do Flamengo, torcia descaradamente a favor do rubro-negro nas transmissões que eram feitas pelo rádio. Quando o Flamengo era atacado, ele dizia mensagens do tipo:"Ih, lá vem os inimigos. Eu não quero nem olhar.", se recusando claramente a narrar o gol do adversário. Quando o embate era realizado entre equipes que não fossem o Flamengo, sempre que saía um gol, primeiro ele narrava, e depois tocava uma gaita. Diz-se que Ary Barroso abandonou a narração esportiva, depois da derrota do Brasil na Copa de 1950, tamanha foi sua decepção.
Também teve um programa Rede Tupi intitulado “Encontro com Ary”.
Morreu no Rio de Janeiro, em 1964, de cirrose hepática decorrente de alcoolismo, e está enterrado no Cemitério de São João Batista. No ano em que morreu, a escola de samba Império Serrano ia desfilar o tema Aquarela do Brasil. Ary não chegou a ver o desfile, pois morreu no dia 9 de fevereiro, pouco antes do Carnaval. O Rio de Janeiro foi tomado então de uma comoção geral. Muita emoção.
Segundo o jornalista Ronaldo Evangelista, em 20/08/2010 na Folha de S.Paulo: “Não há música feita no Brasil sem influência de Ary Barroso”. Ary Barroso é importante por tudo e sua história se confunde com a da música brasileira. Todas as biografias passam por Ary Barroso: Raul de Souza, Elza Soares, Luiz Gonzaga, Dolores Duran, Jamelão e centenas de outros começaram ali. Se já teria o nome nas enciclopédias garantido pelo tanto que fez, o lugar no Olimpo Ary garantiu com a sofisticação de suas canções e suas inovações como compositor. A música acima de tudo em sua história.
Além de ter deixado mais de 400 músicas, entre elas composições que alçaram a música popular brasileira ao cenário internacional, Ary deixou textos e relatos em jornais ou cartas, entrevistas, que retratam de modo geral sua visão de mundo como artista e ser humano. Vejamos algumas delas:

Bancos da praia
Ary Barroso - O Globo

Melhor que alcovas, onde, egoisticamente, o amor se oculta. Bancos da praia - feira de gestos lúbricos ou mercado de atitudes loucas! Bancos da praia - tribuna de beijos e exposição deesfregações! Bancos da praia - paraíso dos amantes, sepultura da polícia!
Copacabana ensolarada
Ary Barroso

O verão está chegando. As montanhas amanhecem lavadinhas de sereno. O céu anda completamente bonito. O horizonte afastou-se para dar mais oceano a gente. Copacabana entregou-se de corpo e alma ao velho Sol. Os "brotos" estão brotando de todos os lados. Os "golfinhos" também. Quem mais se alegra com a chegada do verão são os donos dos bares e restaurantes, porque tiram o ventre da miséria. Bem entendido: os da orla da praia.
Vou todo
Ary Barroso

Amanhã irei a uma gafieira. Preciso ir. Preciso ver aqueles pares sambando. O "mestre-sala" manobrando. O trombone chorando. A cerveja entornando. Os cabelos esticados brilhando. Quando, periodicamente, dava um pulo no "Elite", era mais compositor e compreendia melhor o sentido exato do "samba com telecoteco". A música de boate convida à melancolia. A música de gafieira espanta as mágoas e é mais Brasil! Vou lá. Mas, vou todo!... Depois te conto.



Entrevista ao jornalista Walter Prestes
Ary Barroso

Vou bater-me pela criação da Sociedade Protetora dos Compositores. Os autores brasileiros não podem continuar ganhando 2 ou 3 tostões por pedaços que lhes arrancam da alma.
Infelizmente, Ary, muitos artista ainda vivem assim. Só mudou o dinheiro.
Sobre a profissão de advogado
Ary Barroso

A profissão de advogado é muito estática. Creio que daria um excelente causídico, principalmente no crime. Eu sou mais dinâmico. Não tomei posse no cargo, porque o meu caminho era outro... a música popular.
Sorte a nossa.

Definindo a poesia
Ary Barroso

Por que a poesia?
Por que é o melhor caminho da vida. Não há vida sem poesia.

Qual o primeiro verso?
Ma-mãe. O verso que toda gente diz.

O senhor se sentiu no primeiro verso?
O primeiro verso é que me sentiu nele.

Viagem de bonde
Ary Barroso - O Jornal

Como estivesse na Rua do Catete e sem carro, peguei o primeiro bonde que passou e voltei à cidade - Não sei há quantos anos não me servia dos bondes da Light! Por isso, estranhei demais. Bonde era bom no meu tempo de estudante de Direito. Viajava-se folgado, tranqüilo, barato. Agora é um inferno! Gente como o diabo! No banco de cinco vão sete e mais uns quatro de pé à nossa frente. Nem jornal se pode ler. Antigamente as senhoras eram gentis, maneirosas, educadas. Hoje, Deus me livre. Vão entrando, vão pisando na gente, vão amassando tudo e nem pelota. Para se descer é um verdadeiro sacrifício. E como os bondes estão velhos e enferrujados, jogam e rangem, travam e arrancam fazendo dos passageiros verdadeiros coquetéis. For favor! De bonde, só... a pé!
Agora, meus amigos, vocês podem imaginar se Ary Barroso visse como andam os ônibus e trens de hoje?



Vida noturna
Ary Barroso

Pergunto: Há vida noturna no Rio de Janeiro? Se vida noturna é freqüentar os mesmos bares; correr os mesmos restaurantes; ver as mesmas caras; ouvir os mesmos cantores com as mesmas músicas; assistir os mesmos "shows"; discutir os mesmos assuntos; - se vida noturna é isso, a vida noturna carioca é formidável. E conservadora: não muda nunca. Entra ano, sai ano, é a mesma. De vez em quando aparece por aí um "Lido", uma Amalia Rodrigues, um Silvio Caldas ou uma Elizete Cardoso. Passam depressa e tudo retorna à tranqüilidade clássica. Os bares são semelhantes. As variações são mínimas. Tudo escurinho. Já se sabe que o amor adora a meia luz. Um pianista. Uma cantora. O "barman". A dose raquítica de uísque. O preço gordíssimo. Aves noturnas, tresnoitadas. Vazio, o bar parece corredor de Santa Casa. Cheio, pouca diferença tem de um mercado de peixe: gritaria. O carioca não sabe conversar baixinho. E a fumaceira? Os olhos se nos ardem até às lágrimas. E o freguês chatíssimo que nos abraça vigorosamente oito vezes e conta a mesma estória, quatro? E o chofer que só atende a clientes "para a zona norte"? E a mulher que nos vem vender flores de papel de seda? Vida noturna... O Rio tem vida noturna..
Suas composições atravessaram gerações. Foram gravadas e regravadas por dezenas de artistas. Ainda hoje são largamente conhecidas como:
A Vida Não É Aventura
Você pensa que a vida é aventura
E que tudo no mundo é ilusão
Você pensa que eu sou criatura
Sem cabeça e sem coração
Já sofri e conheço este mundo
E já sei onde devo pisar
O que eu quero é um afeto profundo
Quero alguém a quem possa amar
Já vivi, a falena queimou-se
E das cinzas surgiu nova vida
O que eu fui terminou, acabou-se
Como seca, no peito, a ferida
Nova vida. E na praia um recanto
Para olhar o horizonte sem fim
Já não choro, secou o meu pranto
Encontrei-me bem dentro de mim
Abc do Amor
A letra A alegria e amizade
A letra B brincadeira e bondade
A letra C carinhosa e caridade
A letra D desejar dignidade
A letra E emoção e eternidade
A letra F feita de felicidade
A letra G grande é a generosidade
A letra H harmonia e humildade
A letra I implantar a igualdade
A letra J junto L liberdade
A letra M com mais musicalidade
A letra N nossa grande novidade
A letra O olha a originalidade
A letra P prá ter personalidade
A letra Q nós queremos qualidade
A letra R na rua, no rio da realidade
A letra S sempre com serenidade
A letra T tendo a vida tão florida
A letra U união prá toda vida
A letra V viva a vida de verdade
A letra X xô prá lá tristeza e dor
A letra Z zelamento de amor
Três Lágrimas
Eu chorei
Pela primeira vez na minha vida
Quando nossa vida se complicou
Éramos então duas crianças
Cheias de vida e de esperança

Lembro-me bem do teu olhar espantado
Quando te roubei um beijo bem roubado
E uma lágrima dos olhos me rolou
Eu chorei
Pela segunda vez na minha vida
Quando minha vida desmoronou
Tínhamos então mais vinte anos
Mágoas, saudades, desenganos
Lembro-me bem do teu olhar esquisito
Quando te olhei surpreso e muito aflito
E uma lágrima dos olhos te rolou
Eu chorei
Pela terceira vez na minha vida
Quando minha vida se acabou
Ia pela rua amargurado
Quando ouvi bem o teu chamado

Lembro-me só que já fugira a meiguice
Do teu lindo olhar agora era a velhice
E uma lágrima dos olhos nos rolou.
Bahia imortal
Ary Barroso - 1945
Salve a Bahia imortal
Do Senhor do Bonfim
Que toma conta de mim
Terra tradicional
Salve São Salvador.
O poeta Castro Alves
Pai da gente de cor
Bahia que nasceu
Cresceu forte e varonil
Terra que foi o berço do Brasil.

Bahia que canta
Nas noites estreladas
Das batucadas
E as lindas baianas, faceiras
Mexendo os quadris
Salve a morena brasileira
Chama o baiano pra sambar
Deixa o baiano batucar.

Gosto de ver o seu jeito de batucar
As cadeiras bolindo, que é de amargar
Oh, baiana, faz isso comigo, não
Presta atenção e vai vendo como é
Que a baiana dengosa, bate o pé
E levanta o pó do chão
Vira pra cá, ô lelê
E vira pra lá, ô lalá
Tem pena, Iaiá, tem pena
Se é pecado roubar um beijinho só
Eu vou ser pecador, juro que vou ser
Oh, baiana faz isso comigo, não
Quem peca não vai pro céu
Cai no samba também
Que te faz muito bem.

Ainda hoje, Ary Barroso é considerado pela crítica como um dos mais férteis compositores brasileiros. Sinto-me emocionada de trazer hoje à memória de tão sublime talento. Expressar-se em versos, dizendo muito em poucas linhas é talento único e elevado. Eu, que não escrevo em versos, mas sim em prosa, preciso de muitas linhas para contar uma história, como atestam as 432 páginas de A fórmula da vida”. Admiro o trabalho do poeta-compositor que cantou em versos as belezas do Brasil, assim como Gonçalves Dias anteriormente fez e muitos outros. Espero sinceramente ser digna de ocupar a Cadeira de tão notável patrono, a quem rendo homenagem final com Aquarela do Brasil, seu mais conhecido sucesso.
Aquarela do Brasil (Brazil ou Aquarela brasileira)
Ary Barroso - 1939
Dados do http://www.arybarroso.com.br/





Discurso de recepção de Adriana Igrejas como membro efetivo da Academia de Letras & Artes de Mesquita (Cadeira nº 24, Patrono Ary Barroso)
Ac. Glaucio Cardoso
Ilustríssimo senhor presidente da ALAM, jornalista Othon Ávila Amaral;
Ilustres colegas acadêmicos;
Autoridades presentes e representadas;
Senhoras e senhores;
É com a alma plena de júbilo que dirijo-me a vós outros. Júbilo este nascido da honra de que me sinto investido por proceder à apresentação de Adriana Igrejas como membro da nobre instituição que nos agrega. Bem sei que o protocolo manda que se lhe faça um panegírico biográfico; entretanto vejo-me impelido a quebrar tal protocolo por dois motivos que reputos justos.
Primeiro pelo fato de que uma vida não cabe de modo acertado em umas poucas linhas, correndo-se o risco de diminuir-se o biografado quando se deveria apenas apresentá-lo.
Segundo porque se existe uma forma de dar conta da essência de um artista, é mediante o debruçar-se em sua obra. Charles Chaplin, perto do fim de sua vida, teria dito a um repórter que pretendia escrever-lhe a biografia: “Se quer me conhecer, veja meus filmes.”
É com este espírito de ideias que peço licença para debruçar-me sobre os escritos de Adriana Igrejas, tentando sua análise pelo viés estruturalista tão ao gosto de nomes como Tomachevski, Brik e outros teóricos pertencentes à corrente do formalismo russo.
Existe uma literatura feminina? Esta é uma pergunta que se apresenta nas mais diversas formas e sobre gêneros distintos. A história literária está repleta de vítimas deste pensamento reducionista do fenômeno literário. Cito dois exemplos: a francesa Amandine Aurore Lucile Dupin, que se viu forçada pelas contingências de seu tempo a assinar sua obra com o pseudônimo “George Sand”, e a brasileira Clarice Lispector que, após publicar Perto do coração selvagem (1944), leu do crítico Sérgio Milliet a afirmação de que aquele “nome desagradável” só podia tratar-se de um pseudônimo sob o qual escondia-se um raro escritor.
Até bem pouco tempo era comum dizer-se de uma escritora cujos textos apresentassem certa densidade que ela “parecia escrever com os testículos” e não foram poucas as autoras cujas obras naufragaram quer por submeterem-se à escrita “masculina”, quer por sacrificarem a liberdade criativa em nome de uma afirmação da feminilidade em seus escritos. Plena qualidade literária só foi alcançada por escritoras que se colocaram à margem destas questões para simplesmente darem vazão à expressividade, patamar no qual situa-se a já citada Clarice Lispector, bem como Raquel de Queiroz, Ana Maria Machado, Auta de Souza, Ana Miranda e Hilda Hilst. Felizmente, parece-me que podemos adicionar o nome de Adriana Igrejas a tal lista.
Ao entrar em contato com a escritora Adriana Igrejas, é preciso preparar-se para três diferentes vieses literários: a crônica, o conto e o romance. Embora guardem certas semelhanças, tratam-se de estilos com aspectos muito específicos que não podem ser ignorados sem prejuízo tanto para o leitor quanto para o escritor.
A cronista Adriana Igrejas possui uma leveza enganadora, pois esconde sua convicção férrea apresentando-a em uma prosódia suave, quase poética, porém com uma capacidade argumentativa que nos remete aos principais representantes do gênero, como Fernando Sabino e Rubem Fonseca. A este aspecto cabe o dito popular “luva de pelica cobrindo um soco inglês”.
Mas é no conto que a escritora se revela. Herdeira da tradição modernista, Adriana constrói suas narrativas com uma linguagem concisa e enxuta, na qual a fragmentação confere agilidade e dinamismo ao texto (o que lembra em muito Alcântara Machado) de modo a dizer tudo com um mínimo de palavras.
Os contos parecem ter dado à escritora a coragem para uma ousadia: um romance! E onde tantos caíram, Adriana triunfou.
A escrita romanesca apresenta diversos riscos aos autores. É preciso manter o interesse dos leitores sem permitir que a narrativa perca ritmo ou se estenda para além do necessário e mesmo escritores experientes podem não ser capazes de fugir às armadilhas que a escrita acarreta, como aconteceu com o polonês Joseph Conrad, autor de obras primas como O Coração das trevas, Lord Jim, A loucura do Almayer e Nostromo, mas que fracassou em seu último romance cujo título é, ironicamente, Vitória.
Ao migrar do conto para o romance o autor está em terreno perigoso. Por vezes o contista sobrepuja o romancista e o texto termina por constituir-se numa colcha de retalhos que busca, em vão, apresentar alguma unidade.
Tal não se deu em A fórmula da vida, no qual o que vemos é o casamento perfeito e harmonioso da linguagem concisa com o desenho detalhado (mas não enfadonho) dos personagens, lugares e situações, fator que aproxima a escritora do inigualável Guimarães Rosa.
Espero que estes apontamentos sobre a obra de Adriana Igrejas fiquem defasados o quanto antes, pois é meu desejo sincero que a autora prossiga em sua escrita e, seguindo seu sobrenome, continue a depositar suas oferendas no altar da Literatura.
Glaucio V. Cardoso
27/03/12

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